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Reunião COPOM 03/2018 - Incertezas no Horizonte



Nesta próxima semana teremos novamente uma reunião emblemática do COPOM, quiçá um divisor de águas na política monetária para os próximos anos.
Tal como no último encontro, estará em pauta uma vez mais a redução da taxa SELIC para seu menor patamar histórico.
Também tal como 45 dias atrás estávamos, e aqui inclui-se o BACEN, certos de que era o fim do ciclo de flexibilização monetária, tudo indica que, agora sim!, o ciclo de queda da taxa básica de juros chegou ao fim. No entanto, me parece que o risco de um novo corte nesta reunião aumentou. Eis alguns motivos:
a) Inflação - A despeito dos recentes indicadores de inflação estarem surpreendendo positivamente, vale lembrar que: 1) espera-se um ano de safra de grãos 6% abaixo do realizado no ano anterior (IBGE) - e os preços agrícolas foram o principal componente para que tivéssemos inflação abaixo do limite inferior da banda em 2017 -, 2) preços de serviços deixaram de subir somente nas últimas leituras, 3) preços industriais defasados, com poucos reajustes (não compensatórios) nos últimos períodos, 4) dólar dentro da banda de R$ 3,10-3,30 (nos últimos dias testou romper...), mas com o câmbio fortemente ameaçado pelo risco político da eleição no radar, que logo mais fará preço nos ativos, 5) numa economia madura em recessão, as pressões de preços reaparecem quando há uma retomada mais forte na atividade econômica - e tudo indica que estamos voltando a crescer, 6) o desajuste das contas públicas não foi - e nem está!!! - perto de ser PALIATIVAMENTE resolvido, então podemos ver pressões inflacionárias vindas também deste componente, 7) em se tratando de Brasil, a sombra da herança hiperinflacionária e a inflação inercial são fantasmas que nunca devem ser esquecidos por um gestor de política monetária sério.
b) Hiato do Produto e Recuperação Econômica: um tema que está bastante em voga, ainda bem, é o hiato do produto. Se por um lado ficamos por muito tempo preocupados com a queda da atividade e o baixo dinamismo da economia, o alívio nas pressões inflacionárias está fortemente ligado ao hiato do produto - diferencial entre o produto potencial e o produto real. Isto fica mais evidente se observamos o alto nível de desemprego (12,2% na última leitura, 01/2018 - IBGE) e o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (NUCI) da Indústria, atualmente em 78,1% (01/2018 - CNI). Com tais dados, temos boa evidência de que há espaço para crescimento sem pressões inflacionárias, ficando em aberto o timing de realização do crescimento para que se feche tal gap - ou seja, um crescimento mais acelerado tende a fechar mais rápido este diferencial. Se as expectativas atuais de crescimento do PIB (2,87% Relatório Focus, BACEN) e inflação (IPCA 3,67% - Relatório Focus, BACEN) forem realizadas, tudo indica que as pressões inflacionárias reaparecerão somente em 2019.
d) Risco Político - Eleição no Radar: aqui a questão mais delicada e, muitas vezes, passional. O cenário para a eleição presidencial ainda está muito nebuloso, mas está claro que um candidato que mantenha a agenda reformista será recebido de braços abertos pelo mercado, nem tanto pela população. Por outro lado, um candidato que engavete as reformas colocadas em pauta, mas não votadas, pelo governo Temer será recebido como um balde de água fria pelo mercado, ao mesmo tempo que a reação popular pode divergir em virtude das demais medidas que tal governante pretenda adotar. Fato é que, mantido o status quo, a economia pode caminhar por conta própria, desde que seja domado o rombo das contas públicas. A questão é, como fazer isto sem reformar a previdência e seu modelo defasado?
Tendo isto em conta, é importante lembrar que uma baixa taxa de juros contribui em muito para a redução do custo pós-fixado da dívida pública, servindo como alívio às pressões nos cofres públicos.
Levando todos estes pontos em consideração, vejo que o COPOM terá muito mais cautela em sua decisão desta próxima semana, uma vez que um erro na calibragem da SELIC pode desencadear um movimento altista da taxa ainda este ano, embora pareça pouco provável HOJE; contudo, vale lembrar que as expectativas se modificam rapidamente e o efeito prático de modificações na taxa de juros ocorrem com meses de defasagem.
A seriedade da atual gestão do BACEN não me leva a crer que haverá irresponsabilidade na condução desta decisão, pois Ilan Goldfajn até o momento não mostrou sinais de que "joga para a torcida", o que em termos práticos implicaria reduzir a SELIC a seu menor patamar histórico e deixar como herança a seu sucessor uma inflação ascendente e a missão de ancorar expectativas através de uma escalada na SELIC. Até porque pode não haver sucessão...
Resta esperar para saber o desfecho da decisão, mas a torcida é para que esta seja acertada e que possamos conviver por muito tempo com juros baixo e inflação dentro da meta. Na escala social isto é bom para os pequenos, os médios e o grandes conseguem se adaptar.

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